quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

O Caçador de Pipas (Parte 1)

"Colhemos bem uma meia dúzia de romãs. Desdobrei a história que tinha trazido, virei a primeira página mas, depois, pus as folhas no chão. Fiquei de pé e peguei uma romã já passada que tinha caído da árvore.
- O que você faria se eu desse com isso na sua cabeça? - perguntei, jogando o fruto nas mãos, para cima e para baixo.
O sorriso de Hassan desapareceu. Ele parecia mais velho do que eu imaginava. Aliás, mais velho não, velho. Seria possível? Linhas marcavam o seu rosto moreno, e vincos contornavam seus olhos e sua boca. Eu bem que poderia ter pegado uma faca e escavado ali aquelas linhas com minhas próprias mãos.
- O que você faria? - Repeti.
Hassan ficou sem cor. Perto dele, o vento soprava folhas grampeadas da história que eu tinha prometido ler. Atirei a romã em cima dele. Ela bateu em cheio no seu peito com um jorro de popa vermelha. O grito que ele deu estava cheio de surpresa e dor.
- Bata em mim! - exclamei.
Hassan ficou olhando para a mancha em seu peito e para mim.
- Levante daí! Bata em mim! - disse eu.
Hassan levantou mesmo, mas ficou parado, atordoado como um homem que é arrastado para o oceano por uma onda repentina quando, minutos antes, estava passeando calmamente pela praia.
Atirei outra romã em cima dele; desta vez, no ombro. O suco espirrou em seu rosto.
- Revide! - exclamei. - Revide, seu maldito!
Queria mesmo que ele fizesse isso. Queria que me desse o castigo que eu estava pedindo. Talvez, assim, pudesse finalmente dormir de noite. Talvez, assim as coisas pudessem voltar a ser como antes entre nós. Mas Hassan não fez nada e continuei atirando frutas nele sem parar.
- Você é um covarde! - gritei. - Apenas um maldito covarde!
Não sei quantas vezes o atingi. Tudo que sei é que, quando finalmente parei, exausto e ofegante, Hassan estava todo lambuzado de vermelho, com se tivesse parado diante de um pelotão de fuzilamento. Caí de joelhos, cansado, sem forças, frustrado.
Foi então que Hassan apanhou uma romã e veio andando na minha direção. Abriu a fruta e esmagou-a na própria testa.
- Pronto! - disse ele, com voz rouca, e suco vermelho escorrendo pelo rosto como se fosse sangue.
- Está satisfeito agora? Está se sentindo melhor?
Depois virou as costas e começou a descer a colina.
Deixei as lágrimas rolarem livremente e, de joelhos, fiquei balançado o corpo para frente e para trás."

(O caçador de pipas - Khaled Hosseini)



3 comentários:

Lucas Dias disse...

esse livro é excelente mesmo, se é O MELHOR eu não sei ;D

beijos

Lucas Dias disse...

eu também linda, saudade constante de você ;)

thi disse...

vamos ver esse filme?

entao..so pra dizer que to com blog ;)

beeeeijos!